• Aracaju, Sergipe
  • 14/05/2026
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A reciclagem não é novidade na América Latina. Até onde é possível lembrar, os mais pobres dos pobres ganham a vida precariamente catando lixo nos depósitos de lixo durante o dia e nas ruas à noite, em busca de qualquer coisa que possa ser vendida. Muitos desses catadores de lixo são crianças e em alguns locais famílias inteiras vivem nos aterros sanitários, dividindo os dejetos da cidade com os urubus e os ratos.

Mas, nos últimos anos, em muitos países da América Latina estabeleceram-se programas organizados de reciclagem. Alguns deles visam beneficiar os catadores de lixo que há muito vasculham aterros sanitários. Outros foram criados em resposta a campanhas educativas organizadas por grupos ambientalistas locais e internacionais. Os mais bem-sucedidos combinam objetivos ambientais com os retornos econômicos essenciais para tornar um programa verdadeiramente sustentável.

Os programas vão de pequenos projetos comunitários a empreendimentos industriais de grande escala. Em Jambelli, pequena cidade litorânea de veraneio do Equador, a bela vista do mar costumava ser desfiguradas pelos monturos deixados pelos freqüentadores da praia, que nunca conseguiam achar receptáculos para o lixo. Com o apoio financeiro de um programa de gestão comunitária de recursos costeiros financiado pelo BID, as lojas situadas em frente à praia colocaram lixeiras destinadas ao material reciclável em locais estratégicos e lançaram uma campanha educacional para estimular tanto os turistas como os moradores a usá-las.

Esforço semelhante transformou as atitudes em relação ao lixo em Ayora, pequena cidade de montanha da província equatoriana de Cayambe. Quando o conselho municipal se cansou do precário serviço de coleta de lixo prestado pela vizinha capital da província, os moradores decidiram resolver o problema por conta própria.

O conselho municipal de Ayora conseguiu US$17.000 em doações – US$5.000 em recursos do BID, canalizados por meio da Fundação Esquel, e US$12.000 do governo do Canadá – que usou na aquisição de lixeiras vermelhas, colocadas nas esquinas das ruas. Depois comprou uma carroça e um cavalo e inaugurou um serviço de coleta de lixo duas vezes por semana. Em seguida, o conselho montou um centro de reciclagem fora da cidade, no qual é separado o que é metal, plástico, vidro e papel para revenda, enquanto o lixo orgânico é convertido em fertilizante composto, vendido aos cultivadores de flores do vale. O pouco que sobra é incinerado.

A coleta de lixo é hoje uma fonte de orgulho cívico, particularmente entre as crianças. Depois que a reciclagem foi colocada no currículo escolar, em casa as crianças exigem dos pais que usem as lixeiras para despejo de seu lixo.

“A mudança nos lares vem das crianças”, explica Gabriel Serrano, presidente do Conselho Municipal de Ayora. “Os pais têm menos educação social e cultural que seus filhos. E dão atenção ao que eles lhes dizem.”

A reciclagem no Brasil, como quase tudo o mais nesse país, está ocorrendo em grande escala. Considere-se o exemplo de Fortaleza, capital do estado nordestino do Ceará. Cerca de 1.000 pessoas, entre elas 300 crianças, viviam antes do que conseguiam catar no enorme depósito de lixo de Jangurussu, nos arredores desta cidade de 2 milhões de habitantes. Eles faziam uma triagem completa do lixo, com as mãos desprotegidas, separando plásticos, vidros, metais e madeira para revenda. Os caminhões despejavam lixo no aterro sanitário dia e noite. O trabalho era difícil e muitas vezes perigoso, sobretudo à noite, quando as crianças podiam não ser vistas e eram atropeladas pelos caminhões.

“Trabalhávamos a céu aberto e sob sol quente, na chuva, em meio ao barulho”, relembra a jangurusseira Antonia Jocinélia Pacheco Ferreira. “Vivíamos como animais.”

No início da década de 90, a companhia de saneamento da cidade, SANEFOR, solicitou ao BID financiamento para a expansão do sistema de esgotos e de coleta de lixo da cidade. O projeto incluía uma usina de reciclagem no aterro sanitário de Jangurussu e um plano para organizar os jangurusseiros em cooperativa, com a construção de moradias de baixo custo para eles em local próximo. Hoje, a usina funciona em três turnos e está aos poucos se tornando auto-sustentável.

“De todos os projetos da SANEFOR”, diz dona Izelda Rocha Almeida, assessora suplente para o programa, “este é o melhor em termos de benefícios sociais. Mas foi o de mais difícil execução de todos. Como cooperativa, eles conseguem vender os artigos recicláveis a um preço melhor do que antes. Mas é difícil convencê-los a enviar suas crianças para a escola, porque acham que são necessárias para trabalhar com eles no aterro sanitário.”

Em Bragança Paulista, cidade do estado de São Paulo, a fábrica de papel de seda SANTHER oferece um exemplo impressionante do que se pode chamar de segunda geração da reciclagem.

A empresa fabrica a maioria de seus produtos a partir de papel usado –100 toneladas dele por dia. Ao mesmo tempo, cerca de 80% da borra produzida no processo de fabricação – cerca de 90 toneladas por dia – são usados pelas fábricas de tijolo da vizinhança. Essas fábricas misturam a borra com argila na proporção de 1 por 9 para produzir tijolos mais leves, mais fortes e mais baratos que os tijolos convencionais. A doação da borra acarreta para a SANTHER a economia anual de US$30.000, que seriam pagos pela sua remoção e eliminação. Em 1993, a empresa recebeu financiamento da Corporação Interamericana de Investimento, afiliada do BID, para compra de nova maquinaria com o objetivo de expandir a sua produção.

Invista em tecnologias de tratamento

lixo

Transformar o lixo em fonte de renda implica, também, em oferecer soluções eficazes para seu tratamento. Segundo esta matéria, 40% dos resíduos gerados nos centros urbanos brasileiros têm uma destinação incorreta. Isso significa não só perda de receita como também ameaça para o meio ambiente e a saúde humana. Lixo descartado de qualquer maneira gera poluição visual, doenças e pode contaminar o ar, solos e águas.

As tratadoras que recolhem o lixo gerado pelas empresas precisam investir em soluções que deem uma nova utilidade aos resíduos. Existem, hoje, tecnologias indicadas para diferentes tipos de lixo que são gerados. A primeira medida é entender a natureza dos resíduos que estão sob a responsabilidade da tratadora e buscar a melhor tecnologia para tratá-lo.

Entre as opções de tratamento possíveis estão:

  • reciclagem: processo que recupera o lixo transformando-o em matéria-prima ou um subproduto com valor comercial;
  • compostagem: realizado através de processo biológico de decomposição do lixo orgânico, resulta em um composto orgânico que pode ser utilizado no solo sem riscos ao meio ambiente;
  • aterro sanitário: forma de disposição final do lixo em local estratégico e com técnicas de engenharia, seguindo normas operacionais para evitar danos à saúde pública e impactos ambientais;
  • incineração: processo que consiste na redução de peso e volume do lixo pela combustão controlada. É o sistema mais utilizado no Brasil para o tratamento dos resíduos hospitalares e industriais.

Cinco ações que afastam o passivo ambiental da sua empresa

Cumpra a legislação ambiental para descarte do lixo

Além de conhecer sobre a temática do lixo e buscar as melhores tecnologias de tratamento, é essencial o cumprimento da legislação ambiental. As empresas que querem se destacar no tratamento de lixo precisam seguir à risca as diretrizes para a preservação da natureza.  Ter domínio da legislação ambiental e aplicá-la corretamente evita punições, impulsiona o negócio e traz credibilidade para as tratadoras.

Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) incentiva uma menor geração de lixo, o reaproveitamento e a reciclagem dele. Para as tratadoras, a PNRS recomenda uma preocupação com as tecnologias que irão recuperar o lixo. Os métodos têm que possuir sua viabilidade técnica e ambiental comprovadas, para que não comprometam a natureza e a saúde humana. Além disso, dependendo do tipo de tratamento adotado, é necessário um programa de monitoramento de emissão de gases tóxicos aprovado por órgão ambiental.

Perfil do lixo produzido nas grandes cidades brasileiras:
1. 39%: papel e papelão
2. 16%: metais ferrosos
3. 15%: vidro
4. 8%: rejeito
5. 7%: plástico filme
6. 2%: embalagens longa vida
7. 1%: alumínio

Índices da Reciclagem
Capitais em que há catadores nos lixões: 37,4%
Cidades com mais de 50 mil habitantes: 68,18%
Cidades com menos de 50 mil habitantes: 31,67%
Nas ruas
Capitais em que há catadores nas ruas: 66,67%
Cidades com mais de 50 mil habitantes: 63,64%
Cidades com menos de 50 mil habitantes: 31,67%
Lixões
Capitais com lixões: 25,93%
Cidades com mais de 50 mil habitantes (excluídas as capitais): 72,73%
Cidades com menos de 50 mil habitantes: 66,67%
Fonte: Pesquisa Água e Vida/Unicef.

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