Queimando o nome na sua trajetória Ricardo Marques na política sergipana foi marcada por mudanças de rumo em pouco menos de dois anos. Eleito vice-prefeito de Aracaju ao lado de Emília Corrêa, o jornalista rompeu politicamente com a prefeita, deixou o partido pelo qual os dois chegaram à Prefeitura e, mais tarde, entrou na disputa pelo Governo de Sergipe pelo PL. Nessa reta final da campanha, após a Justiça Eleitoral considerar inviável a continuidade de sua chapa, Ricardo declarou apoio a Valmir de Francisquinho — adversário que havia criticado sua candidatura por dividir o campo oposicionista.
Em 2024, Ricardo era vereador pelo Cidadania e Emília também ocupava uma cadeira na Câmara Municipal, pelo PL. Os dois venceram a eleição para a Prefeitura de Aracaju. Após a vitória, Ricardo foi anunciado como secretário municipal da Comunicação, acumulando a função com a vice-prefeitura.
A convivência política, porém, se desgastou. Em outubro de 2025, Ricardo deixou a Secretaria da Comunicação e afirmou que continuaria como vice-prefeito. Nas semanas seguintes, foram publicadas exonerações de pessoas ligadas a indicações do vice. O rompimento, que já era comentado nos bastidores, tornou-se mais evidente com a saída de Emília do PL e sua filiação ao Republicanos, partido do qual assumiu a presidência estadual. A mudança partidária ocorreu num período em que o comando do PL em Sergipe estava ligado ao grupo de Rodrigo Valadares.
Meses depois, Ricardo aceitou o convite para se filiar ao PL e disputar o Governo do Estado. A decisão abriu uma disputa por espaço no campo oposicionista, que tinha Valmir como um dos principais nomes. Em março, Valmir criticou publicamente o lançamento da candidatura de Ricardo, afirmando que ela dividia um grupo que já era pequeno. Também disse que acreditava que Ricardo teria espaço no agrupamento e que se sentiu usado durante as articulações.
A campanha enfrentou dificuldades na composição da chapa. Em agosto, Pastora Salete desistiu de concorrer a vice-governadora e declarou apoio a Valmir. Ao anunciar a saída, afirmou que não via unidade interna no projeto. Ricardo respeitou publicamente a decisão e anunciou que buscaria outro nome.
O substituto foi Érico Menezes, apresentado em agosto. Mas, em 29 de setembro, a poucos dias da eleição, Érico anunciou que estava deixando a candidatura. Em comunicado público, citou a saúde da esposa. No pedido encaminhado à Justiça Eleitoral, segundo reportagens, apontou divergências sobre o posicionamento e o propósito da candidatura.
Sem prazo para registrar um substituto, a chapa ficou sem candidato a vice. No dia seguinte, o TRE-SE homologou a renúncia e considerou inviável manter a candidatura de Ricardo ao Governo sem a composição completa. Naquele momento, Ricardo afirmou que não desistiria e alegou ter sido desrespeitado e sabotado. As acusações foram apresentadas por ele; a reportagem não as trata como fatos comprovados.
Na quinta-feira, 1º de outubro, Ricardo apareceu em uma transmissão ao lado de Valmir e declarou apoio à candidatura do ex-prefeito de Itabaiana. A decisão o aproximou novamente do grupo político de Emília, com quem havia rompido após a eleição municipal.
O apoio veio depois de uma campanha marcada por mudanças de partido, divergências dentro do campo oposicionista e duas desistências na vaga de vice. Para o eleitor, a sequência deixa uma pergunta política: o que mudou entre o momento em que Ricardo decidiu disputar o Governo e a noite em que passou a apoiar o candidato que, meses antes, apontava sua candidatura como fator de divisão da oposição?

